ando tão à flor da pele 

que a minha pele tem o fogo

do juízo final

 

 

 

 

 

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Auto-sustentável

 

Preocupante mesmo é o gasto de pilha.

 

 

 

 


 

teu corpo com amor ou não, raspas e restos me interessam

 

 

 

 

 

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Godot

Toda a espera é em si, um gozo.

A espera pela festa de aniversário.

Pela viagem para Muriqui.

Pela prova para a qual se estudou.

Pela boca, cuja proximidade a tudo arrepia.

Pela broca do dentista.

Pela mala.

Por ele que está por entrar, em minutos, por aquela porta.

Pelo dia marcado.

Pelo sexo que se anuncia.

Pelo puxão da depiladora.

Pelo tapa.

Pelo tempo de não mais pensar.

Por eles que um dia vieram, e eu fui tão mais que eu.

Pela chuva, pelo sol, pela neve, pelo natal.

Pelas mãos.

Pela nota onde finda a introdução e começa o canto.

Pelo pau que se aproxima.

Pelo gozo.

Por eles, que agora vêm, e eu me desfaço em mim.

 

A espera é o arrepio da alma.

 


repetitiva

 

Mal acabei de publicar a postagem anterior, desconfiei que já havia atribuído este título a algum outro escrito. Posta no campo de busca a palavra “desgoverno”, apareceu isto, que se vê clicando aqui.

 

 

Às vezes me orgulho do que escrevo.

 

 


desgoverno

E aí que a porca torceu o rabo.

E eu noto que não tenho necessidade de mais ninguém.

Apenas queria muito.

Perde-se tanto tempo.

Tempo em que a minha boca poderia estar reconhecendo na sua, tudo que ela não tem competência para me dizer. Porque há uma hora, mes amis, em que é preciso abdicar de dizer:  já não faz diferença.

Entretanto,  o que se vê é um conglomerado de ações inúteis, em prol de objetivos forjados, e isso se espalha em ondas e nada faz sentido. Meio assim como essa prosa.

E acredito que sim, dentre as coisas que dão sentido à etérea existência, estão as placas de trânsito e a minha boca na sua.

O que, pelo visto, significa que seguiremos sem rumo.


apesar, contudo, todavia, mas, porém

 

 

Meu pai –  homem de considerável sabedoria – diz que a vida vale a pena de ser vivida não por outra coisa, senão pela ínfima possibilidade de uma paixão.

Tendo eu sido feita desta massa de busca pelo miolo das gentes e coisas, me é difícil manter a fleuma, quando meu fígado se encontra em permanente autofagia, e me falham pulsações, os mais breves vislumbres de meus objetos de desejo.

Nenhum toque me passa, de fato, despercebido. Um roçar de braços. É como sentir na água perfumada de um bom mixólogo, hibisco nas laterais da língua, gengibre e pimenta no centro, e no fim, o travo terroso da beterraba. Sinto cada coisa e me arrepio, com a água e o roçar. Olhos fechados, sabores me invadem, e cheiros, e sei de cada um, um tanto, e expropio-os de suas origens insiginificantes – pois que é o sabor que lhe sentem pela vida, que lhes significa a existência, distraído ouvinte, saiba.

Um brinde à minha língua curiosa e meticulosa.

Não estou em posição de requerer que a mim me saibam o gosto, que a mim me queiram saber. Mas como disse Rita Lee, e eu aqui já repeti há bem pouco tempo: enquanto estou viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz. Que no fim, é o que diz meu pai – sábio: a vida vale não por outra coisa que não a ínfima possibilidade de uma paixão.

E é a crença no ínfimo – herança pela qual sou tão grata – que me faz viver com gosto.

Pois é de gosto e sabor que se trata viver.

E é por isso que  agora eu vou é cuidar mais de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

eu não sei o que meu corpo abriga nessas noites quentes de verão e nem me importa que mil raios partam qualquer sentido vago de razão

 

 

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Não tem dó no peito

 

Não se beija a buceta de uma mulher impunemente.

Não dá pé, não é direito.

Não se beija a buceta de uma mulher impunemente.

Não tem ninguém que mereça, não tem coração que esqueça.

Não se beija a buceta de uma mulher impunemente.

Isso é um bicho de sete cabeças.

 


Ninfa

Eu não sei não!

Se eu estou triste, penso que trepar seria um troço legal, pras circunstâncias. Discorro longamente sobre o assunto, como se viu.

Se estou feliz, de alma lavada, e sinto, aliviada, que finalmente o sorriso me atinge os olhos, então penso: taí! ia ser legal dar umazinha agora.

A pessoa que literalmente só pensa naquilo.

Mas não tem problema não! Vou comprar uma tela de macramê pra mim, e hei de sublimar esses desejos toscos e animalescos, e doravante só ouvirei Brahms.

O problema é que homem existe. E tem cheiro e barba. Essa coisa toda que me perturba o juízo.

Vou me converter ao judaísmo, ou a qualquer dessas sábias religiões que separam os gêneros. Vou comprar um hamster. Vou usar uma saia de anarruga branca e um twin set azul bebê. Vou comprar um sapato usaflex. Vou ouvir o programa do Boechat. Vou polir os talheres com kaol. Vou jantar na parmê. Vou dizer a taboada de 8 de trás pra frente. Vou ver um beijo de novela e assistir a um filme pornô.

E  assim, precavida, nunca mais pensarei em sexo.